Briga entre irmãos?

Aprender leva tempo mesmo, mas ver as crianças conquistando novos territórios emocionais é bonito e traz um renovar de esperança.


“Você é chata, princesa, barriguda e banguela” uma das minhas meninas falou, bem brava, para a irmã.


A irmã respondeu: “Você vai falar assim comigo, só porque não quero mais brincar disso?" e ainda continuou: “Eu não ligaria se eu fosse uma princesa barriguda e banguela, mas chata eu não sou!”. E as duas começaram a rir.


Quando eu ouvi de longe esse diálogo me senti feliz, não por elas terem resolvido o conflito. Mas por tentarem caminhos respeitosos, mesmo que o inicio tenha sido uma tentativa de ofensa.


Tem dias que que as crianças conseguem refazer o caminho por dentro delas e percebem que agiram porque estavam tomadas de raiva, ciúmes, fome ou até mesmo sono. Tem dias que a confusão é grande e o choro vem antes da palavra.


Faz parte. Aprender leva tempo mesmo, mas ver as crianças conquistando novos territórios emocionais é bonito e traz um renovar de esperança.


Como são os conflitos por aí?


Uma vez, durante uma atividade que estava realizando com algumas crianças entre 6 a 9 anos, uma delas manifestou estar muito brava. Começou a jogar as coisas no chão, e eu perguntei:

- O que aconteceu? Você está chateada? A criança respondeu, “eu não sei”

A criança não não sabia mesmo nomear o que estava sentindo. Ela só sabia que incomodava.


Mesmo quando o sentimento é forte, nem sempre, a criança consegue reconhecê-lo. E quando reconhece, não está preparada para falar sobre o assunto.


Nesse dia, deixei a criança sentir tudo que estava sentindo. Ela jogou os papéis no chão e chorou, chorou bastante.


Chorar alivia, ampara, chorar faz bem. Com tanto que não machuque ela mesma ou o outro, nem de fato quebre coisas, jogar coisas e papéis no chão não é um limite pra mim e quanto arrumar a bagunça, a gente arruma juntas depois.


Eu fiquei ao lado dela, disponível até que ela se sentisse bem e segura.


E quando a tempestade passou, ela aceitou meu abraço. Timidamente ela contou que a irmã nunca a deixava participar das brincadeiras e isso fazia com que ela se sentisse que não era boa suficiente para a irmã querer brincar junto dela.


Eu perguntei se ela já tinha dito isso para a irmã e a partir daí ela falou bastante sobre vários assuntos e situações. Não levei a solução, não a fiz pensar de alguma forma que eu imaginava que ela poderia pensar. Eu apenas a ouvi e me demonstrei interessada pelos sentimentos dela.


É muito natural rotularmos as crianças que convivemos, nossos filhos, sobrinhos, vizinhos, amigos dos nossos filhos. Rotulamos, como “criança difícil”, “criança agitada”, “criança nervosa”, “criança sem limites”, “criança impossível”.


A verdade é que nenhuma delas possui algum desses rótulos de fato. A criança tem apenas muitos sentimentos dentro de si, e poucos adultos interessados em ajudá-la, a entendê-la, a ouvi-la sem precisar diminuir.


Quase nenhum que se disponibiliza a ouvir sem querer apontar qualquer resposta, solução e caminhos. Apenas ouvir.

A gente não precisa entender de muita coisa, só precisamos ser um porto seguro, como uma margem que não deixa o rio transbordar, que não deixa emperrar no caminho, que ampara e que faz a vida fluir no ritmo que deve ser.

*Publicado em Parentalidade

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